Desafios da maternidade: como mantive a minha identidade

Manter a identidade depois de ser mãe foi, de facto, para mim, um processo feito de pequenas decisões práticas, não de uma fórmula mágica. No artigo anterior partilhei a parte mais reflexiva desta experiência: a transformação das prioridades, o instinto que nenhum livro substitui, a amamentação e os desafios da maternidade que raramente se falam em voz alta. Se ainda não leste, vale a pena começar por aí.

🔎 Resposta rápida

📌 O que ajudou mais? Manter-me ativa e proteger pequenos momentos só para mim, sem culpa.
📌 A culpa desaparece? Diminui com a prática, mas o primeiro passo continua a ser o mais difícil.
📌 É preciso ter rede de apoio? Ajuda muito, mas dá para começar mesmo sem ela.

A parte prática desta jornada

Neste artigo fico, assim, pela parte mais prática. O que fiz concretamente para não me perder no meio de todo o amor e de todas as responsabilidades que a maternidade traz. O que aprendi, sobretudo, com a experiência. E o que te digo com a distância e a clareza que o tempo nos dá.

A decisão de me manter ativa: antes e depois

Durante a gravidez mantive-me a trabalhar, a fazer a minha vida, a praticar desporto. Estive no ginásio até ao sexto mês, com treino devidamente adaptado à fase em que estava. Não foi fácil todos os dias, claro que não, houve, sobretudo, dias de cansaço, de desconforto, de vontade de ficar no sofá. Mas foi, ainda assim, uma decisão que tomei de forma consciente e que hoje, olhando para trás, identifico como uma das que mais impacto teve na minha recuperação pós-parto.

Sei que este é um ponto sensível para muitas mães, uma vez que nem todas têm as mesmas condicionantes: físicas, emocionais, profissionais. Além disso, cada corpo recupera a um ritmo diferente, e comparar recuperações raramente ajuda, sobretudo nos primeiros meses. O parceiro que cada uma tem ao lado, o acesso a ginásio ou espaço para se movimentar, as inseguranças de cada uma, são tantos os fatores que seria presunçoso generalizar. O que posso partilhar é, no entanto, a minha experiência: manter o movimento foi manter uma parte de mim que existia antes de ser mãe. E isso importou muito, mais do que antecipava.

Duas horas para mim não me tornaram uma mãe pior. Tornaram-me uma mãe mais presente em todas as outras horas.

Vale a pena, ainda assim, sublinhar que esta decisão não foi tomada de ânimo leve. Conversei com o meu médico, ajustei expectativas à medida que a gravidez avançava, e aprendi a ouvir o corpo em vez de o forçar. Nem todos os dias correram bem, e houve semanas em que reduzi a intensidade sem culpa nenhuma, porque a escuta do corpo fazia sempre parte do plano.

O regresso aos treinos: a culpa que ninguém te avisa

Retomar os treinos depois do nascimento foi, de facto, um marco. Aquelas duas horas de vez em quando só para mim, a suar, a desligar, a sentir o meu corpo, eram, de facto, um respiro que eu não sabia o quanto precisava. No início, no entanto, não foi tão simples quanto parece, dito assim.

No início, sobretudo, sentimos sempre que estamos a fazer falta noutro sítio, àquela pessoa pequenina que acabou de chegar ao mundo e que parece precisar de nós em todos os momentos. Ou então sentimos que estamos a abusar de quem está a cuidar dele durante esse tempo. Assim sendo, a culpa aparece antes de nos calçarmos, aparece no caminho para o ginásio, aparece no meio do treino.

Mas tudo isso está, sobretudo, na nossa cabeça, por mais real que pareça no momento. Hoje sei. E tu também vais saber, quando deres esse passo e voltares para casa e perceberes que o teu filho está bem, que a pessoa que ficou com ele está bem, e que tu estás claramente melhor. Esse momento vale tudo.

A rede de suporte: o que tive e o que te desejo

🤍 Uma privilegiada que reconhece a sua sorte

Olhando para trás, sinto-me uma privilegiada por vários aspetos que se alinharam naquela fase. A minha rede de suporte foi incrível, o meu filho foi incrível, o meu marido foi incrível. E estávamos no Verão, o que me permitiu aproveitar ao máximo aquele período único apesar das dificuldades que foram surgindo pelo caminho.

Nem todas as mães têm esta sorte, e tenho, de facto, plena consciência disso. Mas quero dizer-te isto com toda a convicção: pedir ajuda não é fraqueza. Aceitar suporte não é falhar. É exatamente o oposto, é ter a clareza de perceber que um bebé não precisa de uma mãe perfeita. Precisa de uma mãe bem. E uma mãe bem é aquela que sabe quando precisa de descansar, de pedir, de receber.

Por isso, se tens pessoas à tua volta dispostas a ajudar, deixa-as. Se não tens, procura criar essa rede: grupos de mães, apoio profissional, comunidades online onde te sintas ouvida. A solidão na maternidade é real e não precisas, de todo, de a enfrentar sozinha.

5 dicas práticas para manteres a tua identidade no dia a dia

Com base em tudo o que vivi e aprendi, aqui ficam, assim, cinco coisas concretas que qualquer mãe pode começar a aplicar, independentemente da fase em que está.

1. Protege pelo menos um momento por semana que seja exclusivamente teu, sem culpa e sem negociação com ninguém, incluindo contigo própria.
2. Mantém uma atividade que existia antes de seres mãe, seja o desporto, um hobby, um café com amigas, algo que te lembre quem és fora da maternidade.
3. Pede ajuda ativamente e aceita-a sem sentimento de dívida: deixar o teu filho com alguém de confiança por duas horas não é abandono, é saúde.
4. Fala sobre o que sentes, com o teu parceiro, com uma amiga, com quem te faça sentir ouvida e compreendida, sem julgamento e sem soluções forçadas.
5. Lembra-te regularmente de quem eras antes de seres mãe: os teus gostos, os teus sonhos, os teus valores continuam a ser teus e merecem continuar a existir.

Para as mães que estão a passar por isto agora

🤍 Uma mensagem de coração

Se estás a ler isto e a sentir que te perdeste algures no meio de fraldas, mamadas, noites sem dormir e de um amor que nunca soubeste que caberia dentro de ti, quero que saibas uma coisa: isso que estás a sentir é real, é válido e é partilhado por muitíssimas mães que parecem ter tudo sob controlo por fora.

A maternidade não tem de apagar quem és. As tuas prioridades vão mudar, o teu tempo vai ser distribuído de forma diferente, e haverá dias em que não te vais reconhecer. Isso é normal, isso é humano, isso é maternidade real.

Mas o teu eu continua lá. À espera de duas horas tuas por semana, de um treino, de um café quente, de uma conversa sem interrupções. À espera de que te lembres que podes amar o teu filho com toda a intensidade do mundo e, ao mesmo tempo, não abrir mão de quem és.

Não precisas de ser perfeita. Precisas de ser tu. E isso é mais do que suficiente.

Uma soma de pequenos gestos

Assim sendo, se procuras mais ferramentas práticas para aplicar no teu dia a dia, o artigo sobre maternidade sem culpa reúne sete estratégias que se juntam bem a estas cinco dicas.

Olhando para trás, o que mais valorizo não foi nenhuma decisão isolada, mas sim a soma de pequenos gestos repetidos ao longo de meses: um treino aqui, um café ali, uma conversa honesta noutro dia. Nenhum destes momentos, sozinho, teria feito grande diferença, mas juntos foram, de facto, o que me permitiu chegar ao outro lado sem perder de vista quem sou.

Nos próximos artigos desta categoria continuo a partilhar experiências e reflexões sobre maternidade, rotinas e tudo o que ninguém te conta antes de seres mãe.

Segue-me também no Instagram para não perderes o que partilho por lá 👉👉 Mãe com Plano 💚🤍

  • Orçamento familiar de setembro: como reorganizar as finanças depois das férias
    Setembro é, para muitas famílias portuguesas, um dos meses mais exigentes do ano para o orçamento familiar. De facto, com as despesas de verão ainda a pesar no extrato e os custos do regresso às rotinas a chegar todos ao mesmo tempo, é fácil sentir que o controlo financeiro escorregou das mãos. A boa notícia…
  • O burnout das mães: como reconhecer os sinais e recuperar sem culpa
    O burnout das mães é uma realidade muito mais comum do que se fala, e muito mais silenciosa do que se imagina. Não chega de repente com um colapso dramático: instala-se devagar, disfarçado de cansaço, de irritabilidade, de sensação de que estás sempre a falhar em tudo ao mesmo tempo. E a pior parte é…
  • Rotina da manhã com filhos: como criar uma rotina que funciona mesmo nos dias difíceis
    A rotina da manhã com filhos é, para muitas mães, o momento mais caótico de todo o dia. O despertador toca, as crianças não querem sair da cama, alguém não encontra o estôjo, o pequeno-almoço arrefece e a sensação de que tudo está fora de controlo instala-se antes das 8h. No entanto, há uma boa…
  • O que uma Criança Pode Fazer em Casa: Tarefas, Autonomia e Responsabilidade
    Antes de mais, envolver os filhos nas tarefas domésticas não é sobrecarregá-los. É, sobretudo, prepará-los para a vida e aliviar genuinamente a família no dia a dia. Há uma cena que muitos pais conhecem bem: o fim do dia, a cozinha por arrumar, a roupa por dobrar, a mochila por preparar, o jantar a meio…
  • Como criar uma segunda fonte de rendimento sendo mãe a tempo inteiro
    Ter um emprego, uma família e ainda criar rendimento extra não é impossível. É, sobretudo, uma questão de escolher bem, começar devagar e ser consistente. Ser mãe a tempo inteiro e trabalhar a tempo inteiro é, por si só, uma tarefa exigente. Acrescentar uma segunda fonte de rendimento parece, à primeira vista, mais um peso…

Artigos semelhantes

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *